• A primeira Republica apontou como desígnio da sociedade guineense a RECONSTRUÇÃO NACIONAL. Nada mais justo e coerente com o facto de que a proclamação do Estado, para lá do seu significado Jurídico-político, é o reassumir formal e integral da condução do nosso destino. Isso faz do organizarmo-nos em Estado ou construir o nosso Estado, tarefa central, vital, para o avanço e consolidação do processo de reconstrução nacional. Impondo o exercício da soberania que, em última instancia, dentro e fora do território nacional, sejamos nós a conceber e tomar decisões, concernentes aos nossos interesses nacionais, então éramos, somos e seremos nós, cidadãos guineenses, enquanto povo ou nação, a assumir essa obrigação. Certo de que a isso chegaríamos, antes de criar bases de guerrilha, Amílcar Cabral criou uma instituição a que deu a designação de LAR, espaço em que iniciou os combatentes na cultura organizacional e instrução nos diversos domínios do saber militar e civil. Foi de lá que saíram os primeiros núcleos de guerrilheiros para formação no estrangeiro, que viriam a ser os primeiros comandantes da guerrilha do PAIGC. Quando isso sucedeu (1960), na colónia, Guiné portuguesa, já se estava acima de quatro séculos de dominação e do ponto de vista educativo, 99,07% da população estava fora do sistema educativo e tinha-se acabado de criar o primeiro e exíguo liceu em Bissau, reservado essencialmente a filhos de colonos e de funcionários coloniais. A partir deste quadro de nível educacional, não havia reservas humanas qualificadas, suficientes, para se constituir uma elite dirigente militar, só ou essencialmente com autóctones; daí que, tanto a guerrilha como essa componente essencial das forças coloniais, conhecida por Comandos Africanos, do ponto de vista operativo, acabaram por ser dirigidas principalmente por oficiais de muito baixo nível de formação escolar ou mesmo nula. Referir-se a isto, serve para dizer que as duas forças agindo no mesmo espaço, colheram ou recrutaram autóctones da mesma sociedade, presa a uma elevadíssima taxa de analfabetismo. Portanto nem o colono nem o colonizado conseguiram melhor, porque estavam ambos condicionados á realidade objectiva, ou seja, só com o que puderam fazer.

    Se para fazer a guerra a sociedade guineense não tinha para oferecer a nenhum dos contendores gente qualificada para constituírem forças armadas no sentido clássico de seu conceito, em nosso entender, fica claro que, após a proclamação do Estado da Guiné-Bissau, ia-se construir um Estado a partir duma situação social altamente deficitária em termos de competência e experiencia para tão gigantesca, urgente e complexa tarefa. Por outro lado, com o assassinato de Amilcar Cabral, o país perde o arquitecto principal, do projecto de libertação nacional e construção do Estado na Guiné-Bissau. Esta enorme fragilidade para a condução do processo que se ia iniciar, é agravada pela saída massiva de quadros civis e militares coloniais, que detinham e manejavam o aparato político-administrativo da colónia. Traduzindo-se isto numa outra expressão, diremos que o líder principal deixa o comando do processo e a transferência dos mecanismos administrativos da colónia para os dirigentes do Estado cuja construção se ia iniciar, deu-se por abrupta rotura, eivada de inúmeros erros de parte a parte, humanamente enquadráveis e compreensíveis em contextos de fins de conflitos militares.

    Apesar dos enormes esforços feitos pelo PAIGC para a formação de quadros, associados a quadros formados pelo regime colonial, na Guiné e na metrópole, no inicio da instalação das instituições do Estado na Guiné-Bissau, verificou-se a insuficiência dramática tanto em quantidade como em qualidade, de quadros qualificados, para fazer funcionar o aparelho de Estado, nomeadamente na sua componente de administração publica. Esta situação, que devia merecer uma cuidada abordagem, levou à constatação de que a matriz doutrinal legada por Amilcar Cabral, não tinha sido entendida convenientemente pelos seus correligionários. Em vez de se assumir a nação como um todo a reconstruir, sem discriminações, exclusão e perseguição de compatriotas reencontrados apôs a guerra, nomeadamente nos centros urbanos, desencadeou-se outra guerra, pretensamente justificada por defesa e imposição de nova ideologia, quando na verdade, os novos detentores do poder, armados, estavam a tratar de assegurar só para si, os acessos às mordomias e outras vantagens que os cargos públicos permitiam e permitem. Os poucos e mais experimentados quadros coloniais, autóctones, tanto civis como militares, desarmados, foram afastados do aparato administrativo, verificando-se nessa purga, até a eliminação física de muitos deles. Nessa saga, até se incluíram dirigentes de outros movimentos de libertação, nomeadamente a FLING, do qual alguns dirigentes foram presos e fuzilados junto com elementos dos Comandos Africanos.

    Subjacente a esta germinação ou consolidação do recurso à violência para o combate político, apôs 11 anos de guerra para a proclamação do Estado da Guiné-Bissau, em nosso entender, reconhecem-se essencialmente, a correlação de três factores inerentes a história colonial da Guiné:

    1º- O regime colonial, em quase cinco séculos de dominação deu apenas o nível de instrução primária a 0,3% da população indígena;

    2º- Na província da Guiné, não se estruturou e dinamizou a economia com modernidade. Era uma colónia, sem indústria, com uma agricultura de subsistência, voltada para a produção, principalmente, de dois produtos, então com algum valor no mercado externo, a saber, o amendoim e coconote;

    3º-Para toda a colónia criou um liceu como referimos atrás, em 1959/60 e mais tarde, uma escola técnica e comercial e não criou nenhuma universidade.

    A conjugação destes factores demonstra que a guerra de libertação foi feita por uma população com um elevadíssimo nível de analfabetismo, extremamente pobre, num território exíguo, quase sem instituições de ensino, durante onze anos, que culminou com a vitória das forças nacionalistas e assunção efectiva do poder pelos seus dirigentes. Estes dirigentes, uma grande parte deles, para não dizer a esmagadora maioria, ao provarem o mel das mordomias do poder, deram largas à sua alienação, produto da residual educação colonial de que foram alvos e passaram a condição paradoxal de exploradores a seu proveito, dos parcos recursos do seu país e povo. Do ponto de vista social e histórico, por esse fenómeno se revela o elo mais fraco do processo de construção do Estado numa ex-colónia: a luta pelo controlo do poder e recursos, entre uma massa maioritariamente impreparada para exercer o poder e uma elite pequena, alienada, mal preparada, igualmente pobre e inexperiente para o exercício do poder de Estado. E, tendo as duas partes vivido uma experiencia demasiadamente longa de violência armada, infelizmente, nelas quedam resquícios de preferência por soluções violentas. A titulo demonstrativo, relembremos que,  Amilcar Cabral aquando do seu assassinato, já baleado, ainda pode dizer aos que o alvejaram, que Cito, “ Os nossos problemas devem ser resolvidos no partido”. O caso 17 de Outubro em que Paulo Correia mais 4 dirigentes militares da Luta de Libertação Nacional e um quadro superior foram fuzilados, entenda-se assassinados, é outro marco dessa preferência. O despoletar e conclusão do conflito politico-militar de 98, outro marco. Os assassinatos de altas figuaras do Estado, nomeadamente  Nino Vieira, Tagme Na-waye, inscrevem-se na mesma senda de recurso preferencial á violência, para se abordar e resolver questões, muita das vezes, de insignificante gravidade, alegadamente em defesa de interesse nacional, quando na verdade não passam de eliminações de adversários na luta pelo poder pessoal.

    Em nosso entender, tendo em conta estas condicionantes históricas, avaliar a situação presente na Guiné-Bissau apôs, apenas quatro décadas de existência como Estado independente, é um exercício que se torna difícil e até confuso, se deixarmos as nossas frustrações pessoais comandarem as nossas reflexões. Hoje, o índice de analfabetismo na nossa sociedade, é de 51% da população, o número de quadros guineenses, de todos os níveis, formados nos últimos 50 anos, é infinitamente superior ao produzido durante quase quinhentos anos de dominação colonial; as perspectivas de crescimento económico do país, são evidentes em termos de potencialidades e reservas de recursos identificados. Tudo isto dito, assumimos que o nosso amado país, Guiné-Bissau, contrariamente ao que parece a alguns cépticos, tal como aconteceu com alguns países da nossa sub-região africana que conheceram conflitos incomparavelmente mais graves (Nigéria, Gana, Serra Leoa, Libéria) está a progredir para a sua estabilização e desenvolvimento. Essa progressão sucedeu e está a suceder pela força e orientação do paradigma doutrinal consubstanciada no pensamento teórico de Amílcar Cabral.

    O Assassinato de Amilcar Cabral, visou destruir o PAIGC e a luta de libertação dos povos da Guiné e Cabo Verde. Mas é a partir desse fatídico 20 de Janeiro de 1973, que o portentoso instrumento ideológico genialmente concebido por Amilcar Cabral e magistralmente difundido pelo PAIGC sob a sua liderança, se coloca nas mãos dos nossos povos como a sua arma essencial, a sua “ARMA DA TEORIA”, para prosseguir compreendendo e fazendo avançar a luta em cada etapa. Poucos são os fenómenos básicos e transversais do movimento de libertação que não foram analisados e registados, do pensamento e experiencia do Líder Amilcar Cabral.

    À medida que se avançava e se avança na luta para a construção do Estados da Guiné-Bissau, surgiram e surgem situações que, naturalmente são avaliadas e enfrentadas cada vez com maior lucidez, eficácia, porque a cada geração cresce o nível de educação, cultura cidadã e politica, sustentada essencialmente, pelo cabralismo. Passados mais de 40 anos após o assassinato de Amilcar Cabral, a força e perenidade do seu legado doutrinal, não só sustentou a vitoriosa conclusão da Luta de Libertação Nacional, como garantiu e garante ao PAIGC e Povo da Guiné-Bissau, um quadro de pensamento activo, com o qual se tem defendido e mantido O Partido Libertador, seu insubstituível instrumento de luta.

    Seria possível a continuidade com sucesso, da Luta de Libertação  Nacional sem o aparto doutrinal criado principalmente por Amilcar Cabral? Não. Se da parte de dirigentes do PAIGC, em particular, e nacionais em geral, houvesse a estricta observância, com competência e sem dogmatismo, do essencial da sua doutrina, pelo menos, teríamos derrapado para cíclicos recursos a golpes, assassinatos, impunidade e estagnação. Estou em crer que não.

    Assim como se verificou a invencibilidade do cabralismo ante o regime colonial, assim se vem afirmando invencível face aos que, tanto no PAIGC como na nossa sociedade, por ignorância ou má fé, não o assumem como túnel principal por onde deve passar o nosso entender e fazer politica na e para a Guiné-Bissau. Foram tantos e tão evidentes os casos que confirmam esta nossa convicção, que nos permitimos dispensar demonstrações. O que entendemos merecer referência para provar que a invencibilidade – direi mesmo, sem inquietação – de Amílcar Cabral, advém da observação à luz do seu pensamento do que neste ano, de apenas 40 anos de existência, construção do nosso Estado e Reconstrução Nacional, está a acontecer, tanto na trajectória do PAIGC como na da sociedade guineense. Nos decorridos 41 anos de ausência física de Amílcar Cabral, PAIGC, chegou à realização do seu VIII congresso a braços com uma das maiores e mais ameaçadoras crises a sua integridade, que viveu nos seus quase 60 anos de vida e luta. Profundamente abalada pela crise a que o país foi conduzido a 12 de Abril de 2012, a sociedade guineense vem resistindo estoicamente e com impressionante dignidade, defendendo um percurso o mais pacifico possível até à realização da eleições gerais.

    No Congresso do PAIGC, três jovens dirigentes, nascidos no periodo da Luta de Libertação Nacional, disputaram a Liderança do Partido. Conhecido o vencedor, em UNISSONO assumiram a vitoria como do PAIGC; assumiram o compromisso de defender e promover a unidade interna do Partido; felicitaram-se mutuamente; comprometeram-se a lutar por novas vitórias do PAIGC; comprometeram-se a trabalhar na governação para o desenvolvimento do país e, todos, exprimiram de forma clara e firme, defender o legado de Amilcar Cabral. Tudo isto, sob o testemunho orgulhoso e sereno dos veteranos do Partido, obreiros da independência nacional. Vivemos em Cacheu uma progressão geracional no partido de Cabral, sem rotura e com a noção exacta da urgência de retorno ao cabralismo e estilo cabralista de liderança. Assim como é certo que em política o mais importante é o resultado prático, certo é também que é preciso “confiar para poder confiar”, como ensinou Cabral. Traduzir a nossa confiança a esta nova direcção do PAIGC, em solidariedade real, efectiva, mas livre, nomeadamente do nefasto oportunismo, é e será um importante contributo de cada um e todos os seus militantes, para elevação do cabralismo no Partido e sociedade guineense.

    A caminho das eleições gerais, perfila-se hoje uma igualmente nova geração, representada significativamente por quadros de elevadíssimas qualificações académicas, reconhecida competência profissional, considerável experiencia de luta política e indubitáveis provas de amor à Pátria. Este facto, para lá de ser um indicador potencial de maior capital intelectual na nossa classe política, é forte sinal de que o cabralismo venceu e seguirá vencendo, porque “as flores da Luta” são hoje frutos reais, para saciar a fome e sede de paz, progresso e desenvolvimento “a que temos direito como todos os povos do mundo”. O mais importante para acelerar e dar eficácia a esse desejo, é sermos uma coisa só: OLONKO: estejamos aonde estivermos, tenhamos sempre a Pátria dentro de nós. Sejamos casa definitiva da Guiné-Bissau.

    Falhar no PAIGC e no Estado da Guiné-Bissau sucedeu e sucederá só aos que não compreenderem ou não assumirem o cabralismo e o paradigma cabralista de amor e serviço à nação.

    Ernesto Dabo

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