• Da Guiné portuguesa à Guiné-Bissau O RETRATO DE UM PAÍS A SERPEAR NO «MAR DE ESCOLHOS» E INCERTEZAS

    25 décembre 2015 | Reflexão | Admin
  • A Guiné-Bissau, Pátria de Cabral, de Homens valorosos e corajosos, está situada na costa ocidental da África. Presumo que o(a) leitor(a) já terá ouvido falar deste lindo país que nos últimos anos tem ocupado as primeiras páginas dos maiores jornais do mundo que, diariamente, editam milhares de exemplares e são consultados on-line por milhões de leitores. Passou nos telejornais e nas reportagens das televisões mais prestigiadas do mundo. Alegadamente, é narcoestado, padece de uma doença incurável chamada «instabilidade». 

    É, aos olhos de muita gente, um estado com aspirações translúcidas, desejos incertos, sem esperança, sem paz, sem conforto; um espaço molestado pelos filhos. Eis o seu retrato e o panorama da sua vida. Mas, por mais paradoxal que esta descrição pode parecer, sem receio das controvérsias que pode suscitar, acredito que há gente continua a ter esperanças (sentimento que só desaparece no fim de uma vida). Sim. Há gente que, como Cabral, ainda acredita neste povo.

    É (quase) impossível não falar do percurso da sua curta existência como estado soberano. Podemos descrever duas etapas essenciais: aquela que se constrói à volta da civilização dos povos; e, a que se constrói à volta da luta pela socialização dos povos. 

    Analisando estas duas etapas pode-se melhor definir a vida deste pequeno espaço geográfico da África enquanto “Estado”.

    Gostaria de poder definir a vida da Guiné-Bissau com beatitude mas, para fazê-lo, tenho que especificar estes dois aspectos essenciais: a emancipação (civilização) e o desenvolvimento (socialização). A emancipação de um povo que viveu sob a dependência colonial por mais de 400 anos requer um esforço enorme. Felizmente, Deus deu-lhe filhos dotados de inteligência, espírito de luta e grande capacidade de sofrimento, entre outras virtudes.

    Abel Djassi (Amílcar Cabral), um dos melhores filhos, com cinco irmãos fundaram um partido supranacional, PAIGC. Com este projeto ambicioso traçaram como objectivo, duas grandes lutas: a primeira, a emancipação. Era a luta de libertação dos seus irmãos e das suas terras. Para esta luta mobilizaram outros para libertarem dos desmandos da mais retrógrada colonização de que há memória. Esta etapa de luta durou mais de 11 anos, muitos dos filhos morreram e alguns ficaram feridos e paralisados. Tudo em nome da dignidade e pelo respeito dos seus direitos e pelo bem-estar da Pátria. 

    Abel Djassi, o idealizador do grande projeto acabou por cair no campo da batalha. Os seus irmãos continuaram a luta, confiantes na vitória, confiantes nos ideais da luta, e venceram com coragem e dignidade. 

    A segunda etapa, a socialização. A aparentemente é a mais complexa. Ao sair de uma luta de libertação que durou mais de 11 anos, era necessário pensar na construção, identificar, fazer um diagnóstico real da situação e das condições vigentes para definir as prioridades. Era a grande questão que se colocava: que devia ser tomada em conta antes de mergulhar no turbilhão da euforia da independência. Mas no caso da Guiné, era muito especial. Fui tratada como inferior durante mais quatro séculos. 

    Entretanto dentre os objectivos identificados e traçados por Amílcar Cabral, o ensino e a formação tinham um lugar de destaque. Para ele, a única forma de construir era apostar na maior riqueza – a formação dos recursos humanos, que seria a resposta exata e eficaz aos problemas da socialização e da construção de uma nação justa, capaz de defender os valores democráticos, determinar os limites ao exercício do poder político. A repartição do poder seria amplamente socializada, o uso da brutalidade seria dispensada na nova democracia.  Onde é que a ex-Guiné portuguesa rebatizada GUINÉ-BISSAU, cujos filhos lutaram, venceram e convenceram o inimigo, está hoje? A resposta é curta: Num caminho atribulado, cheio de incertezas… 

    No dia 24 de setembro de 1973, esta terra vestiu a capa da LIBERDADE, que o identificava como Estado, com novas Esperanças, imbuído de PATRIOTISMO. 

    Os bons ventos do desenvolvimento começaram a ser sentidos; viveram-se os primeiros anos da independência num clima maravilhoso; os bons filhos começaram a implementar planos e projetos de desenvolvimento bem elaborados, orientados para objetivos precisos, edificando fábricas, construindo escolas, assinando acordos de cooperação em vários domínios com parceiros e amigos com maiores recursos, procurando seguir os caminhos do desenvolvimento… Tudo parecia ir na via traçada por Abel Djassi. 

    Como se sabe, nem sempre se consegue colocar os melhores no bom caminho, sobretudo, quando na base existem divergências de ideias que carecem de discussões amplas, transparentes e bem objetivadas para desembocarem em algo que sirva os interesses superiores da Pátria e não os pessoais. 

    No início dos anos 80 (oitenta) houve a primeira grande quezília, Luís Cabral, depois de passar os primeiros seis anos a tentar encontrar uma forma de construir um futuro seguro, porque o seu comportamento e os seus projetos não foram bem entendidos, foi derrubado do poder.

    Sem querer ferir sensibilidades, há que referir que as evidências demonstram que esse ato, na globalidade, foi a pior coisa que podia suceder. A luta pelo poder que a partir dessa altura nasceu, a intervenção da classe castrense na gestão e administração do poder político ainda hoje faz sentir os seus efeitos nefastos.

    As vidas humanas que se perderam durante anos a fio em consequência dos “Casos 17 de Outubro de 1986, 17 de Março de 1992, 7 de Junho de 1998, 2 de Março de 2009”, só para citar os mais sonantes, sem contar a delapidação dos recursos naturais e das empresas construídas de 1974 a 1980, no seu conjunto constituem um grande peso e um preço elevado que vai ser pago durante várias gerações. 

    Neste pequeno esboço da vida de um país, livre, independente, rico em recursos naturais, que no quadro concerto das Nações faz parte das organizações mais conceituadas do mundo, não é possível exteriorizar tudo o que está na alma e no coração da gente que sofre por tudo isso.

    Os corações estão repletos de tristeza, os olhos observam a beleza, as riquezas que a natureza nos oferece serem destruídas por alguns guineenses e os seus amigos vindos de todos os quadrantes do mundo, em troca de moedas convertíveis que são passadas por baixo de mesas de negociações dúbias cujo conteúdo não chegam ao conhecimento público. 

    A Guiné-Bissau vive acompanhando os seus filhos e vendo a forma como se odeiam em vez de se amarem. É angustiante ver como se luta pelo poder, o espírito violento que tem estado a ser cultivado ao longo de todos estes anos. A impressão que se tem é que ao longo de 43 anos irmãos combatentes não compreenderam a essência do pensamento de Amílcar Cabral “o simples africano que viveu a sua época e deu a sua contribuição para que hoje a Guiné-Bissau exista como estado soberano. 

    Ter tantos anos sem praticamente nada construir, sem nada a oferecer aos filhos, é inaceitável. Hoje em dia a Guiné-Bissau carrega dívidas que nunca conseguirá pagar e que vão sendo transferidas de geração a geração. 

    O segredo do sucesso, como se diz, mora naqueles que acreditam na formação e capacitação dos recursos humanos. Nesta matéria, as políticas, os programas e os currículos escolares nunca foram bons. O sector educativo é dos piores, situando-se entre os mais baixos do continente. As greves dos professores e outros sectores sociais tornaram-se banais. Muito grave. 

    A saúde deste país, parece nunca ter constituído grande preocupação dos que delapidam a coisa pública, que têm meios para, em caso de doença, irem tratar-se no estrangeiro. Desde 2005 a cólera não deixou de fazer parte do quotidiano, transformando-se numa doença endémica como o paludismo. O estado dos hospitais não vai ser tratado aqui, e nem as condições em que se encontram. Que Deus ilumine, ajude e proteja as almas dos internados nos hospitais de Buruntuma (Leste)  ao arquipélago dos Bijagós (oeste) e de Mpak (norte) a Cacine (sul). 

    A Guiné-Bissau não é “star” como muitos países, isto falando em termos de progresso e desenvolvimento, nem se sabe se um dia ascenderá ao estatuto que a integrará na sociedade de globalização tão competitiva em que o mundo se transformou. O nome figura na lista dos espaços geográficos a evitar, como recomendam alguns países e organizações internacionais, por ser não só “parasita”, “mão de esmola”, mas sobretudo, muito violento. 

    Paradoxalmente, é um Estado de Direito em que a Democracia, o respeito pelos Direitos Humanos, entre outros, merecem destaque na Constituição da República.

    Cabe a todos os guineenses, tanto no país como na diáspora, fazer cada vez mais e melhor para que a situação interna evolua no sentido positivo e que sejam ultrapassadas as divergências que têm gerado as tristemente célebres crises cíclicas que adiam a paz, o progresso e o desenvolvimento.

    Sobre o que se passa hoje, não vou falar porque “a procissão ainda vai no adro”. Quando a sessão parlamentar terminar…

    Adulai Indjai

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