• Depois da crise política e institucional fazer o quê?

    19 septembre 2015 | Sonho Guineense | Admin
  • Carlos Correia é o nome indicado pelo presidente do PAIGC, com aprovação do Bureau Político, como “candidato alternativo ao cargo de Primeiro-Ministro” (número 2 do artigo 40 dos estatutos do PAIGC). O Presidente da República, deu anuência e, a Guiné-Bissau tem um novo Primeiro-Ministro. Desta feita, um HOMI GARANDI, competente, experiente, de poucas palavras.

    PAIGC está de parabéns, Domingos Simões Pereira, José Mário Vaz e todos quantos intervieram direta ou indiretamente para que se chegasse a esta feliz e agradável situação – fim da crise política e institucional.

    Quatro vezes Primeiro-Ministro, Combatente da Liberdade da Pátria, VETERANO que goza de boa reputação tanto no seio do PAIGC como no país inteiro, idóneo e de honestidade irrepreensível, pode-se dizer que, sem ir a outros detalhes, Carlos Correia é o homem certo no lugar certo.

    A grande questão que se coloca ante esta escolha, sendo o PAIGC composto maioritariamente por jovens, em que se destacam quadros de grande valia, é: Porquê Carlos Correia, um octogenário nesta altura em que se precisa de capacidades jovens para conduzir o país depois de ter sido abalado por várias crises?

    Todavia a indicação de Carlos Correia deve ser analisada em duas perspetivas:

    – Do PAIGC;

    – Do Governo.

    DO PAIGC

    É óbvio demais, que Domingos Simões Pereira venceu o VIII Congresso em Cacheu mas, como dizem analistas políticos, “não ganhou o partido”. As diferentes sensibilidades que se perfilam no partido de Cabral, evidenciadas quer na preparação, quer no decorrer da reunião do órgão máximo, não se enquadram no ponto 1 do artigo 6º dos Estatutos que diz o seguinte:

    “O PAIGC reconhece aos seus membros o direito de se identificarem com sensibilidades internas, compatíveis com os objetivos e a unidade do Partido, exigindo o respeito pelas decisões tomadas democraticamente nos termos dos presentes estatutos.”

    Domingos Simões Pereira não obstante o seu Partido ter 57 deputados na ANP, quis prevenir eventuais desregulações que pudessem advir internamente susceptíveis de porem em causa o seu mandato. Daí se fundamenta, delegam observadores atentos, a sua opção de se socorrer particularmente à segunda maior formação política, PRS, e, aos restantes partidos com assento parlamentar para formar um “Governo de inclusão”, que lhe permitisse ter a estabilidade parlamentar ideal para cumprir a legislatura sem sobressaltos de maior. De facto, nos 12 meses subsequentes à constituição e empossamento do Governo não houve qualquer problema que dificultasse a governação, originado pelas partes.

    Houve ganhos?

    Sim mas, os pares do PAIGC na ANP também obtiveram ganhos substanciais ao resolverem algumas “dívidas eleitorais” com alguns apoiantes. Deve-se observar, que nem todas as “sensibilidades” concordaram com essa opção por entenderem que esse compromisso reduz as margens de manobra no tocante a satisfação dos compromissos eleitorais.

    A crise institucional e política despoletada, devido a incapacidade do Presidente da República e o Primeiro-Ministro se entenderem em matéria de governação, veio evidenciar até que ponto o PAIGC está fragmentado uma vez que, em todas as estruturas da base ao topo os camaradas se dividiram e se subdividiram. Este aspeto pode não ser relevante hoje mas, daqui a algum tempo quando se avizinharem os preparativos para as eleições muita coisa invisível será vista literalmente.

    Mais, a forma desastrosa como o poder foi gerido não obstante a mailoria absoluta, é preocupante. Porque foi evidente a incapacidade de controlar, gerir o Partido de forma a garantir que, na próxima legislatura haverá resultados no mínimo iguais ou, na melhor das hipóteses, mais substanciais.

    Domingos Simões Pereira tem a tarefa difícil de harmonizar o PAIGC, estabilizar e tranquilizar as sensibilidades que enformam o Partido de Cabral. Depois da crise há que sarar as feridas e contemporizar com os mais melindrados.

    Do Governo

    Este veterano do PAIGC, Carlos Correia, pode ser dentre as alternativas que podiam ser apresentadas, a figura consensual das sensibilidades, todas.

    A escolha de qualquer camarada, na impossibilidade do presidente seguir a ordem de precedência, conforme recomendam os estatutos, podia reacender o rastilho de complicações desaconselhável para o PAIGC nesta altura em que precisa de recarregar as baterias para recuperar não só a imagem, mas também o tempo perdido para implementar o Programa do Governo.

    Em duas situações o PRS revelou-se exímio no aproveitamento das fragilidades do seu grande opositor, obtendo as pastas ministeriais e as instituições que lhe interessavam. Se não obteve todas, pelo menos obteve uma parte significativa. No entanto observe-se que a sua maior jogada foi feita ao aceitar assinar o Pacto de Estabilidade Governativa que permitiria o Governo liderado pelo ex-primeiro ministro Baciro Dja, caso não fosse a decisão do STJ, governar até ao fim da legislatura em 2018.

    O novo Primeiro-Ministro, certamente que não colocará de lado os quadros válidos capazes de contribuírem para que os ganhos da Mesa Redonda de Bruxelas sejam devidamente aproveitados. Nisso valerá a sua experiência capitalizada aquando da sua passagem no Ministério das Finanças e não só.

    Agora, não acreditamos que, como se haverá um suposto GOVERNO SOMBRA que conduzirá o país enquanto o oficial dirigido pelo HOMI GARANDI se limitará aos atos administrativos mais leves. Porquê? Simplesmente porque Carlos Correia, apesar da sua idade dá mostras de uma grande lucidez e, ser o dono das suas ações. Assistimos diversas vezes as entrevistas que tem dado aos Media,  foram absolutamente impecáveis.

    Pela sua forma de trabalhar sabe-se que o novo Primeiro-Ministro é tranquilo, ouve, dá oportunidade aos jovens, e sabe lidar e trabalhar em situações de alta pressão. Todavia, o seu sucesso dependerá da forma como estruturar o seu gabinete, quem serão os membros. Também dependerá da forma como encarar a pressão dos “Camaradas” do Partido cujas mistidas (assuntos) são diversas e infinitas.

    Não vamos dar qualquer palpite porque o novo Primeiro-Ministro dispensa-os. Mas, nem por isso há que deixar de apoiá-lo.

    Aconteça o que acontecer, fazemos votos para que as instituições funcionem devidamente com base no respeito integral das leis do país.

    Humberto Monteiro

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