• Assaltada por um vazio, deito a mão ao actual livro de cabeceira, a compilação “Pensar para Melhor Agir”, das intervenções do Fundador das nacionalidades GB e CV, Amilcar Cabral, no Seminário de Quadros, 1969. E leio:

    “ Alguns camaradas, mesmo entre os que estão sentados nesta sala, têm a tendência de procurar comodidades à medida que crescem as suas responsabilidades. Há camaradas que, parece, passaram vários anos à espera de responsabilidades para poderem cometer os erros que outros cometeram no seu lugar. Temos de combater isso com coragem, porque a luta é exigência, o nosso Partido é cada dia mais exigente. E aqueles que não entenderem, temos de pô-los de lado, por mais que nos doa o coração. Não podemos permitir que, à medida que a luta avança, que o nosso povo se sacrifique pela nossa luta, que vários camaradas morrem e outros são feridos ou ficam aleijados, que nós envelhecemos dando toda a nossa vida para a luta e quando tanta gente tem esperança em nós, tanto dentro como fora da nossa terra, dizia, não podemos permitir que alguns camaradas militantes ou responsáveis levem uma vida de facilidades e cometam actos que não estão de acordo com as nossas responsabilidades”

    Então, porquê o vazio?
    Porque não me agrada a tremenda opacidade que envolve tudo à minha volta, não me anima o que vejo, não compreendo as movimentações, ou melhor também não me agradam. É tudo “novo”, tudo diferente, tudo estranho … Vejo protagonistas com um perfil que não “encaixam” nas minhas escolhas, no meu aprendizado sobre o Projecto do Pai da Nação – invade-me até uma nostalgia de Alguém que não tive o privilégio de conhecer.

    O que é feito da minha Pátria, “Guiné-Bissau, Nação Africana Forjada na Luta” ? “Piquinino na tamanho má garandi na Fama”…
    Que “fama”, nos tempos que correm? Num ápice, ela surge associada a “novas” figuras (!!!) na arena internacional, “novos” parceiros, “novos” rótulos, que em nada nos beneficiam enquanto País e enquanto Povo.
    Fala-se de “crise política” … “bloqueio institucional”. As vozes que se cruzam no firmamento das lamentações são, de algum modo, imperceptíveis! Acusações e mais acusações … suspeitas e mais suspeitas que desembocam em “Madeira”, “Desvios de Fundos”, “Relatório FUNPI”, “Corrupção”, “Tribalismo” – temas de “interesse público”, carecendo da intervenção do Ministério Público, com a devida investigação dos factos, a acusação e a abertura de um inquérito.
    Quando nos referimos a “interesse público”, aflora, inevitavelmente, a interpretação e a aplicação do Art. 125º da CR, segundo o qual “o Ministério Público (titular da acção penal – [próximo do interesse geral, e não de interesses privados]) é o orgão do Estado encarregado de, junto dos tribunais, fiscalizar a legalidade e representar o interesse público e social.”

    A arena dita “política” no meu País transformou-se num lamaçal onde há muito a explicar e a clarificar … não só por parte das autoridades judiciais, como também por parte dos supostamente “implicados”. Os Cidadãos guineenses têm o DIREITO de conhecer o que está em causa, que negócios terão sido (ou estão a ser) feitos à margem da LEI (acima da qual NINGUÉM “devia” estar) em nome do ESTADO e de todos nós.
    Afinal, porque não se avança? Quais são os interesses sobre a mesa, ou melhor, na mente dos que são apontados como “partes” do conflito? Problema meramente político? Ou será Delinquência económica? No meio deste imbroglio, surgem vínculos que permitem que ninguém seja perseguido(a) por quaisquer delitos cometidos, perante um Ministério Público (titular da acção penal) inerte em relação à sua principal missão (Art. 125º CR). O dever de agir não é uma faculdade, trata-se, sim, de uma obrigação irrenunciável.
    Política, políticas discutem-se, são negociáveis mas os Princípios, NÃO! E enquanto os prevaricadores vão “queimando tempo”, adiando a sentença, a audiência do circo distrai-se atirando “palmas, balões e foguetes”…
    É minha convicção de que, enquanto os interesses instalados tiverem alguma conotação com as múltiplas acusações/denúncias que vão cruzando os ares da nossa martirizada e suspensa “República”, não haverá Acordo (nem de Kigali, Estocolmo ou Helsinquia …) que reintroduza, na mente destes actores, o sonho e o Projecto de Amílcar Cabral.

    Volto a ler Cabral: “ “ O nosso objectivo é fazer o progresso e a felicidade do nosso povo, mas não podemos faze-lo contra o nosso Povo”.
    “O valor de um Homem ou de uma mulher mede-se pelo conjunto de ideias, pela força das ideias que tem na cabeça”
    “Mal – avisados são os dirigentes que queiram guardar o lugar só para si, sinal que não têm consciência algum do dever para com o povo.”
    “ESSES SÃO SERVIDORES DOS SEUS INTERESSES NÃO SERVIDORES DO SEU POVO”.
    “Não estamos a lutar para servir interesses mesquinhos, é o nosso povo que queremos servir”.

    Cabral e todos os Combatentes não morreram para isto! Tanta oportunidade desperdiçada!
    Tanto sacrifício em vão???
    E o nome de Cabral tantas vezes invocado nesta Pátria pela qual deu a vida!
    Haja pudor! Haja vergonha! Esta crise NÃO é política! Numa crise politica não cabem comportamentos desviantes que transgridem as normas sociais estabelecidas em conflito com os parceiros sociais.
    Por: Sao Cardoso